Novas regras para um novo jornalismo
Por Caroline Valente
Característica inerente ao ser humano: busca da felicidade. Mas, o que é felicidade para o cara X, não necessariamente é felicidade para Y. Tantas discrepâncias quanto aos valores éticos, quanto à moral, que essa discussão acaba por se tornar vazia, sem fundamentos. É como duas pessoas que pertencem a diferentes culturas. Muda muita coisa.
Em busca dessa felicidade (pelo menos em nossa sociedade ocidental essa felicidade é privada, particular), passa-se por cima de muita coisa, muita gente. Por essas e outras, há, curiosamente, uma relação inversamente proporcional entre globalização e mídia: enquanto há cada vez menos barreiras simbólicas e maiores possibilidades de uma interação entre povos, sobretudo com a instantaneidade da aldeia virtual, cada vez mais o mundo gira em torno do eu. Somos uma sociedade pós-moderna vivendo os princípios de uma corrente filosófica surgida na Grécia pós-socrática: o Hedonismo, que já considerava o prazer individual e imediato o caminho para a felicidade. E o jornalismo, para não perder o trem, embarca na era das mídias “eucêntricas” (I-centric Journalism). O estouro dos blogs jornalísticos, dos podcasts de notícias, do sistema RSS (Really Simple Syndication), tudo facilita que o expectador escolha para digerir apenas o que estiver a seu gosto, como um menu à la carte. Mas, digerir tão saboroso alimento pode causar desconforto, uma vez que as questões de identidade e alteridade se chocam - o “eu” versus o “outro”.
Definindo o indefinível
Segundo o Dicionário Aurélio:
Identidade: sf. 1. Qualidade de idêntico. 2. Os caracteres próprios e exclusivos duma pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, etc.
Alteridade: do Lat. alteritate, diferença, diversidades.
sf. Fato ou estado de ser um outro (por oposição a identidade); qualidade do que é outro ou de uma coisa diferir de outra.
Nesta contraposição de valores, costumes e ideologias, vale tudo para que o “eu” vença. Alguém sempre está querendo levar vantagem, custe o que custar. E muitas vezes, para isso, omite-se. Esconde-se muita coisa. Já aprendemos a omitir coisas quando pequenos. De uma omissão inocente, vamos evoluindo, evoluindo. Até virar um PhD na mentira. A mídia, hoje, talvez seja uma pós - PhD em omissão. Imparcialidade? Talvez devêssemos extinguir esta palavra do jargão jornalístico.
O tratamento dado ao álter, o outro, vem se mostrando, sobretudo na mídia, tendencioso. O problema não é ter opinião, é utilizar-se das mais sórdidas artimanhas para manipular corações e mentes, e ainda dizer-se isento, meramente informativo. Dia a dia, ano a ano, podemos citar exemplos da manipulação, ou tentativa dela. Pensam que opinião pública e opinião do público são a mesma coisa. Mas não são. De tempos em tempos, elegem-se demônios a serem combatidos: já foi a vez dos comunistas. Hoje, está na moda satanizar o Islamismo, que virou – erroneamente - sinônimo de terrorismo. É a pós-modernidade, segundo o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, que a vincula a tendências políticas e culturais neoconservadoras, determinadas a combater os ideais iluministas e esquerdistas – o marxismo – ideais marcantes na modernidade.
Papel original da mídia: Gatekeeper. A serviço do cidadão comum.
Mídia: talvez o maior poder, na atualidade. E a força de manipulação, direta e indireta, é incrível. E não é de hoje, mas o exemplo mais fresco é a reviravolta no 1º turno das eleições 2006, por conta da manipulação e omissão de informações e divulgação das fotos do ainda não esclarecido escândalo do Dossiê Vedoin, batizado de Dossiêgate, fazendo alusão ao Caso Watergate, que levou à renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon em 1974. Mas o que a mídia fez? Omitiu fatos. Não é só isso, mas é grave. Onde está a premissa básica do jornalismo, de ouvir os dois lados da história? Bobagem. Vamos refazer os manuais de jornalismo, rever as regras? O papel primordial do jornalismo não é dar a base para que o expectador possa construir seu conhecimento crítico? O que se vê é uma imposição de idéias prontas, acabadas, a serem diretamente injetadas no consciente, ou subconsciente, do público.
Novas premissas
Regra nº 1 - Esqueça os chavões "compromisso com a verdade”, “isenção”, “a serviço dos cidadãos".
Regra nº 2 - Temos o poder de mudar muitos cenários. Então vamos fazê-lo pender favoravelmente a nosso lado, ao lado de quem servimos. Custe o que custar.
Criticam tanto a mídia dos países "comunistas", "socialistas". Pravda, Granma. Mas, o que há de diferença entre esses veículos e os tradicionais? Ao invés de servir a um milionário que detém meio mundo, esses veículos servem e divulgam o Estado. O que muda? O patrão...
Wednesday, November 29, 2006
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4 comments:
2006. O ano que não deveria ter existido ... de longe o pior ano nos últimos sei lá ... 10 anos ? Não existiu ano pior ...
Achei seu Texto Ótimo. Li 2 vz. Creio que seu texto diz menos a respeito do jornalismo do que o receptor. A partir do momento que se tem o poder de escolha e se escolhe mau a culpa não é do emissor e sim do receptor ... problema mesmo é não ter opção e afins ... mas esse não é o caso em questão, a internet ...
Odeio colocar meu pensamento em linhas, comentar longamente e pretensiosamente em blog mas este mereceu, ótimo.
Bjim.
OLA CAROLZ
COM TODO O GOSTO QUE TE EXPLICAREI O PROJECTO "TESOUROS MEUS" ASSIM QU ETERMINAR AQUI O TEXTO ENVIO-TO ABREVIADO.
UM ABRAÇO RUI
...ALIAS, GOSTAV DE O DESENVLVER NO BRASIL, ESTOU ATE PENSANDO NISSO;)
Curti o texto, a montagem, o tema e a proposta...
Engraçado a fluência e a velocidade do pensamento caminhando cúmplices, mesmo à distância... você criou uma palavra ao comentar meu blog:
é a "criativaidade"...
parece que o conceito de criativaidade pode bem ser desenvolvido e alinhado à motivação de algumas personagens ou personalidades (ou ambas!) mencionadas no seu texto, né?
Parabéns!
Grande beijo, nos falamos, inté!!!!
postei anônimo porque a minha senha tá tosca... Sou eu, o Cel! rsrsrs
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